Templates da Lua

20090721

O Homem em branco.


Acorda ás quatro da tarde só porque o sono acabou, senão, é possível que dormisse o resto do dia, deste e do resto de sua vida. Abre os olhos encarando sempre o mesmo teto, de certo, pensa que está morto, é certo que deste mundo ele preferia ter nascido em algum outro.
Enquanto desperta lutando por algum resto de sono, algum plano que ainda não caiu no completo abandono, ele ouve vozes da rua; conversas, buzinas, pessoas ou cachorros latindo. E logo lhe vem à cabeça o medo de tudo aquilo. De estar sozinho em meio a uma guerra já previamente perdida. Quem sabe o que pode acontecer enquanto caminho em direção ao banheiro. Alguém me diz algo sobre minha vida e todo o seu roteiro, porque pra mim parece estar totalmente em branco. Não sei onde estivesse ontem, tão pouco aonde irei amanhã. Não aprendi onde moram as pessoas, onde criam seus cachorros, onde morrem pedindo socorro.
Ele para, mas o relógio continua, o situa no meio do dia. Não há mais sol na hora do almoço, nem mesmo almoço nessa hora em que deveria brilhar o sol, lá, si, dó. Seguiu alguns mesmos passos de ontem, pra chegar a algum lugar amanhã, porque hoje simplesmente não existe. Hoje não há vitória em que ele acredite.
Porque as pessoas não param pra conversar? Sentadas em algum lugar, se conhecendo e vendo um pouco do fantasioso tempo passar, acompanharem juntas o mundo girar. Porque outro sono não chega? O que é tão ruim que não me deixa perder todo esse meu medo.
Um passo atrás do outro, e pensa que nesta vida ele mesmo viveu tão pouco. Um desperdício de saúde, de idéias e coleções de arrependimentos. Parece que ontem ele estava em uma festa, conheceu algumas mulheres, e fingia por horas ser algo que ele mesmo não era, mas também pra ele nenhuma delas estava sendo realmente sincera.
Ha uma semana estava em um velório, chorava porque via que estava mais morto que o defunto, mais sozinho que a viúva, mais molhado que toda aquela chuva. Mas ele chorava porque naquele momento, aquilo era a vida dele, o parágrafo de seu roteiro, escrito de ultima hora pra preencher o tempo que sempre sobra. Algo que está pra chegar, mas que ainda demora.
O que as pessoas pensam quando estão sozinhas? Quando passam em frente á uma igreja, quando o trem se aproxima e mesmo assim se atrevem a cruzar a sua linha?
Atravessar a rua pode demorar minutos, mas pra ter um pensamento e mudar o mundo é questão de apenas um segundo. As pessoas gritam mais do que os carros buzinam e ele hoje queria apenas algo diferente, se esquecer um pouco de tudo, do mundo, esse imenso hospital e sua população cada vez mais doente, de epidemia recorrente, contagiosa, viciosa, infecciosa. Compartilhamos as doenças, mas já te negamos até mesmo o pão, o bom dia, uma oração feita á sua família. Quem diria que gastaríamos madrugadas inventando finais felizes, pra amenizar a dor, seu cansaço, maquiar as tuas cicatrizes.
Quem acredita em dias em que se bebe água apenas para acompanhar o calmante? Ele agora descansa sentado na beira de um lago, um lago que não existe, uma poça gigante de chuva, criada no meio da rua, resultado de uma das ultimas e passageiras grandes chuvas. E nessa hora então ele observa como as crianças discutem e brigam, nem choram apenas se vingam. Ele pensa, que se fora criança outra vez, criaria brincadeiras de verdade, crianças felizes pelo menos nessa idade.
Foi nesse contexto que ele não viu o sol se pôr, mas algo lhe dizia que ali a noite já havia chegado. Talvez pelo frio e pelo escuro ou pelas luzes acesas, avenidas, ônibus e corredores lotados, jovens bêbados e drogados.
É quase certo que todos que pisam numa ponte, pretendem chegar ao outro lado. Resistindo a vontade de pular. Se um dia você vai morrer, porque não agora? Já sentiste vontade de voar?
Então sobre a ponte ele olha pro céu e vê os carros passarem junto com a música das nuvens, nas estrelas verdes, vermelhas e amarelas, como semáforos. Respeite á vida, controle seus pensamentos, de um jeito em todos esses ferimentos. A cada acorde a música parece ficar mais alta em sua cabeça. Sentado em um bar, só para tomar um ar, ou alguma dose de álcool, diesel ou gasolina. Imagina se ele fosse se levar a serio, procurar te conhecer e desvendar os seus mistérios, não há manicômio que de jeito, nem predicado que explique esse sujeito. Ele que já foi padre e assassino, esposa e marido. Só pensa em ir pra cama e dormir. Esquecer que essa página, com todas essas letras, fora a narrativa de apenas mais um dia, de mentira, mas que explica muita coisa, da vida dele, da sua e da minha.



Vinicius Ribeiro.