Templates da Lua

20100314

Criadores de Universos.



Fazia se escuro até onde o olho não podia mais enxergar. Havia pressa, lágrimas, cacos de vidros em abraços que há muito tempo haviam se perdido.
E por acaso inserido estava na noite mais escura, entre todas que o torturam. Quando abusa do relógio fazendo deste todos os seus ponteiros pararem. Até fixarem os mesmos contínuos e antigos pensamentos...
“Se ao menos estivesses ao meu lado”.
Eis que incansavelmente repetia a si mesmo. Incansável mente e finge sorrisos para tardes ensolaradas em seu berço. Esqueço o começo de várias outras histórias, há pouco chá sobre á mesa á essa hora. Todos dormem, mas eu, ainda ontem sonhava. Hoje nem durmo. Reapareço e sumo, trago cigarros que não fumo. No entanto, nem o fogo, a chuva ou a morte, me impedirão de continuar tentando.
Ruas e becos sem saída abrigam lâmpadas com luzes previamente adormecidas e era por isso que eu nunca antes te via. Ora repousava um cochilo sobre nuvens de sonhos tranqüilos, aquilo já não fazia sentido quando ora distraia tempestades, na verdade, inundações de tristezas, angústias e reuniões da solidão enraivecida.
Me parecia o trágico fim de tudo, porque era incompleto. Morto ou apenas enterrado vivo? Te digo que jamais viveria pela metade, ainda sozinho não seria um vencedor de verdade.
De cima para baixo, em cada passo esbarrava em dezenas de paredes. Tinha sede! Havia me tornado assim um pouco diferente. Permanecia enforcado, amarrado, ferido e doente. Exilado, havia sido expulso do paraíso sem ter ao menos conhecido a tal serpente. Sei que apenas tu me entendes. E reconheço agora a dimensão de tamanha alegria que aqui então me surpreende.
Andares infinitos acima do inferno. Reatam as vozes dos antigos vocabulários. Horários livres de supostos relógios. Passaram a viver em uma outra lógica. Não tão metódica.
Então os dias começavam assim, mas nunca terminavam no fim. Porque eram infinitos, porque eram ricos. Desconhecem o tal dinheiro, a sabedoria alimenta os já bem mais que o velho pão. Ressuscitavam os defuntos, discorríamos sobre diversos assuntos. E tudo isso enquanto ainda esperávamos nos conhecer.
Pra você desenhei quadros de paisagens que imitavam a vida e tive a exata certeza que tua beleza completaria esta arte pelo resto dos meus dias. Até começar a viver pensei que a morte nos tornaria parte de sua arte, responderia então á nossa tamanha solidão.
Entre manhãs, tardes e noites, sentíamos a fome. Juro que não queríamos ser como eles. Desejávamos um rosto, uma voz, possuir um coração. Uma oração que sempre nos fosse atendida, por um Deus que não está à venda em vários becos e esquinas. Se contradizem ao tentar explicar algo sobre a vida, á medida que vivem, queimam e se exibem, ainda na mesma fogueira das vaidades, em mentiras decoradas que nos vendem como se fossem verdades.
Clave de sol, se pesco peixe sem anzol, eis que em breve conquistarei de vez teu coração, preste atenção quando meus olhos dizem sobre milagres, historias, sentimentos, toda alegria que só contigo eu experimento. O homem que sabia demais, nunca soube se livrar de tamanho sofrimento. Fé e conhecimento gangorreavam entre dias que passavam enquanto não te percebia no mesmo universo em que sozinho eu me afundava. Te procurava entre aquelas mesmas velhas canções. Em paginas amarelas de alguns livros, nas vitrines onde escorriam águas, constantemente me lembravam, às vezes por ti até o céu se rompia, não agüentava e por fim ele chorava.
Por ti eu esperava. ‘ Só mais um pouco, eu pensava, “Apenas mais um dia”, eu dizia. Á minha própria sombra já sentia falta de você. Não demorou pra perceber que até o “porque” jamais existiria sem um ponto de interrogação. Havia eu ficado louco? O louco havia ficado mais sábio que os outros? Tolo daquele que não mergulha em sua própria verdade, constrói grandes muros que o separam de seu verdadeiro e imenso mundo. Então tudo torna se monótono, triste, vazio e sozinho. Contigo letra e canção sonorizam a perfeita união, do teto em ondas, se espalham pelo chão, voam por entre as nuvens. Se curam com o veneno, agora já devidamente convertido em remédio.
É serio, como ainda posso me lembrar, aquela noite navegava ainda perdido no mar escuro, profundo, do presente ao futuro. Avistava apenas grandes muros, grades silenciosas, bailes de mascaras pra distintos cavalheiros e honrosas senhoras. Imploram por liberdade. Latem mas não mordem, esquentam, mas não explodem. Não podem respirar sem um documento, lamento apenas por não perceber que esperar faz parte de viver e ser realmente algo de dentro para fora, que sorri o quanto pode pra esquecer que de vez em quando ainda chora.
Eis que então, bem aventurados, estávamos no mesmo não paraíso, ainda perdidos, andando em círculos, quadrados, esferas e azulejos quebrados, triângulos quadrados, embriagados, e oceanos que amanhecem no abandono, no outono, verão e primavera, pois no inverno, não se levanta nem pra aquecer a comida, se alimenta da própria vida, era tida ao menos como uma espécie de troféu, de ser humano ainda bem longe de se fazer cruel. Como rabiscos em uma folha de papel, não me esqueço de como era fria aquela noite. A morte então regia o espetáculo, tão vago, o mais frio e gelado, sem você ao meu lado, tudo na verdade ainda eram sonhos e saudades.
Mas sabes que também é verdade, sem a escuridão jamais contemplaríamos a luz e essa luz foi como os primeiros batimentos do coração de uma nova vida. Era incrível, de novo eu nasci pequeno, fraco, enlameado, manchado, prematuramente crucificado. Deus que jamais havia errado, comemorava em banquetes de alegria, juventude que nunca se perdia. Nos reconhecemos assim que nos vimos. Rimos, venturosos e milagrosos. A propósito, era isso a grande maquina de DEUS. Um novo dia meu e seu. Obedeceu á Venus que sempre esteve sobre nós. Reconheci a tua voz e por ti ergui meu escudo e minha espada, assim por entre os segundos que logo então prontamente voltei a sorrir.
Aqui jogaram a semente. Porque agora éramos terra fértil, agora éramos a promessa de uma imensa floresta. Agora eu era também a parte de mim que sempre esteve em você e toda aquela luz que ainda faltava pra fazer o meu novo dia amanhecer.



Vinicius Ribeiro.